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16.9.08

Sobre as coisas como são

Um assobio. Sussurros, afagos, tragos e um arrepio. As rimas namoravam as horas, os dedos namoravam as horas, os sonhos brigavam com o tempo. Enquanto o conhaque descia quente e subia tonto, o casal se empertigava, frouxo, sobre aquele banco da praça, às três da manhã; não entendiam muito bem como funcionavam as coisas dos homens, queriam apenas usufruir do vazio das ruas, somando aventuras juntos, sem questionar o que acontecia além do espaço (mínimo) entre eles.
- A garrafa logo acaba – ele disse, e a apertou em mais um abraço, derramando, garganta abaixo, o conteúdo do recipiente.
Ela riu e também deu um longo gole, soluçou e deixou cair a cabeça no ombro dele.
- Quando a gente vai voltar? – pergunta a moça.
- Em breve – responde o rapaz.
E o dia amanhece, e as ruas, aos poucos, se enchem. Ninguém repara no casal sentado ali, ainda a contemplar seus sonhos, uma garrafa vazia no meio deles. Ninguém sente o pulsar da vida se extinguindo, esvaindo-se , solidificando.
Os olhos dos dois pareciam carregar imensa esperança.
Os lábios, apesar de mortos, carregavam beijos intermináveis.
As mãos, mesmo que frias, se apertavam e cruzavam.
Os pêlos ainda estavam arrepiados.
- Pode sentir a chuva fina que cai sobre nossas cabeças? Peles e casacos, cabelos e gotas, num arabesco sentimental.
Os sinos da igreja ainda tocavam, os laços não haviam se desfeito.
As línguas cruéis ainda passavam e cochichavam: “Bêbados!”.
E a garrafa ainda cheirava a veneno.

*Foto de Murilo Ribas, do Olhares.com

30 comentários:

Luis Guimarães disse...

belo texto
esta de parabens
mais é muito bom varar a noite e amanhecer na rua heim, nao com gosto de veneno claro
rsss

http://nalinhadefundo.blogspot.com/

Anônimo disse...

Lembrou Ouro preto.
Sinos banco e álcool.
Intenso.
=]
Beijos.

Anônimo disse...

É clichê dizer isso, mas o texto é ótimo mesmo

DuDu Magalhães disse...

Senti um leve toque de Clarisse Lispector, gosta dela?

Contos de F. disse...

mórbido, mas delicado. dá pra sentir uma paz do casal. romance gótico rsrrs.... bonito

Anônimo disse...

muito bom o texto
mas o que eles esperavam?nao tinham casa?

abraços

Anônimo disse...

ótimo!fazia tempo que não vinha nesse blog, gosto muito dos eus textos, coloquei nos favoritos do meu blog Ana Lucia Nicolau.

1 disse...

Isso é tão "Romeu e Julieta", ou então seja, talvez, algo meio Byroniano, esse amor que é tão forte que destrói ao redor.
Eu sou um tanto grego nesse ponto, se tivesse de morrer, preferiria em batalha. De qualquer forma, minha segunda opção seria morrer por amor, morrer de tanto amar. É bonito também.
Quando li que os lábios estavam mortos, duvidei se você realmente mataria os personagens, e esperei tanto que o fim fosse mostrar os dois vivos, que me surpreendi quando os percebi realmente mortos. Foi uma forma diferente de surpresa mas, ainda assim, surpreendentemente inesperada.
Adorei a expressão "Arabesco Sentimental", realmente genial.

Não entendi o que você comentou, como assim se confundiu e postou a mesma coisa que no post anterior?

Beijos!

Anônimo disse...

Hey, texto muito bem escrito! Você consegue dar fluência pras palavras, ritmá-las, dar-lhes vida. Parabéns!

Unknown disse...

Lindo texto!
Acredito mesmo que as coisas são como são, o que as modifica são nossas perspectivas e nossa imaginação!!

Convido a visitar:
www.espelhomagic.blogspot.com

bjs

Erich Pontoldio disse...

ótimo texto ... virar uma noite com a pessoa amada sentindo a noite é maravilhoso ... sem veneno né.

Alessandra Allegr!a disse...

Ai mocinha sou muito fã de suas idéias.
Tuas palavras escritas quase seriam minhas, se tu não tivesses tido a excelente idéia de publicá-las primeiro...

"As rimas namoravam as horas, os dedos namoravam as horas, os sonhos brigavam com o tempo..."

Amei isso!!!

Um beijo meu

1 disse...

Ah sim, hahaha, entendi!

Anônimo disse...

Um texto curto, intenso e muito prazeroso de se ler.

Voltarei mais vezes por aqui, certeza!

Abs,

Ellen Regina disse...

ótimo texto, reflete o mundo de aparência em que vivemos. Primeiro a gente julga, depois procuramos saber do q se trata.

Jonatas Fróes disse...

Uau! Achei extremamente forte o texto! Matar os personagens no final foi no mínimo surpreendento. Mórbido porém bonito.

;*

Musikaholic

Marcos Pedro disse...

Me deu saudades da sensação de que o espaço entre duas pessoas é uma distância quase inexistente.

hxaxa disse...

é bom flanar por ai..
vagar...
sentir..
se deixar levar...
ótimo texto
...................
tô aqui sempre mas só agora eu consegui postar pq fiz um blog novo..
adoro o que você escreve(lendo uns mais antigos também)

http://pernosticismo.blogspot.com/

Edu França disse...

Tão imagético, cheio de figuras... é escrito com muita delicadeza!

Félix Maranganha disse...

Muito obrigado pela visita, seu blog foi anexado à minha lista de blogs.

Anônimo disse...

muito bom
como sempre!
abração

Jana Lauxen disse...

Fabuloso é a palavra.
Parabéns!

Beijo.

M A R C O S disse...

ao estilo romeu e julieta, gostei pacas do texto! congratulações!

(; bjuu!

Marco Antonio Araujo disse...

Estava revendo meus posts e achei um comentário seu de fevereiro...

Está na hora de restabelecermos contato, não?

Adoro sua sensibilidade.

Henrique Fogli disse...

Muito bom o texto... delícia de final!

Parabéns pelo blog.

Michel Domenech disse...

Texto agradável, sensação boa ao lê-lo, de paz, talvez, muito bom.

Anônimo disse...

Achei um ótimo texto, ainda mais por brincar de ser poema, com rimas e tudo...
Realmente, são dois loucos.
mas a sensação que eles tiveram queria eu ter.

Unknown disse...

uau, adorei, adorei. é bem ao seu estilo, mas ainda assim, muuito surpreendente. excelente.

beeijo,
lov u

Jorge Monteiro disse...

Senti até o frio na barriga
Q texto profundo!!!
parabens
Bjs

Naty disse...

Romântico, mas tb filosofico. Senti um pouco do mito da caverna nesta história.

Gostei tanto do estilo e da proposta do seu blog q vou colocar o link no meu, por fica mais facil para mim acompanha cada atualização.

Obrigada pela visita! ^^