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25.7.08

Corpo Fechado

- Bem que eu tentei. Tomei veneno, caminhei bêbada sobre a beirada do terraço de um prédio de trinta andares, deitei-me sobre pregos, comi biscoito estragado, engasguei com jujubas açucaradas. Tentei ser o pior que pude, mas minha vida sempre foi razoavelmente boa. Nunca vivi um amor proibido e avassalador, nunca passei uma noite na cadeia e mesmo fumando dez cigarros por dia há quinze anos, não estou nem perto de conseguir um tumor. Sempre dei o azar de não dar o azar, e meus anos sempre correram conspirando com minha sorte, mesmo nos momentos em que eu insistia em fazer tudo errado; as coisas sempre acabaram bem para mim. Aliás, já começaram bem: nasci em família abonada, fui criança de passaporte e cursos de natação, inglês, balé e teatro... enfim, qualquer um daria tudo para viver como eu sempre vivi. Enquanto eu daria tudo para ser qualquer um. Tentei ser pobre, mas até sendo pobre eu crescia na vida; tentei entrar para o crime, mas viver ilegalmente era fácil demais pra mim, eu sempre consegui escapar; tentei ser boêmia e passar o resto dos meus anos me auto-destruindo e fazendo arte, mas minha arte era demasiado boa e então os museus me adotaram como vanguarda, o que não me permitiu o sonho de morrer cedo e no anonimato. Mudei de cidade e emprego tantas vezes que perdi a conta. Passei por cada sufoco... Mas, no final, me dei bem em tudo...! Por último, fingi sofrer uma forte depressão, e passei dois meses sem tomar banho ou sol, comer direito ou me comunicar, e aí... resultado: me cansei de bajulações e de um dia pro outro me curei.
(Passados alguns minutos de silêncio, ela senta no divã e pergunta: )
- Então, Dr. Schwartz, o que me diz disso tudo?
- Lamento decepcioná-la, Srta. Becker, mas acredito que o teu bem-estar é crônico. Não há o que fazer, exceto se acostumar com ele.

28 comentários:

Thaíssa Vasconcelos disse...

Me senti sentada no divã...hauhauau

Na verdade já cheguei com esse discurso no meu psicólogo...hauhaua

As coisas sempre deram certo para mim, que eu tomo o dia em que elas não darão...

Dih Fernandes disse...

Que coisa deprimente...
Como uma pessoa não vai gostar das coisas boas que acontecem com ela???

Sei lá...

http://www.avidanobeco.com/

disse...

É no nosso divã que descobrimos o quanto a vida é contraditória!
Ou o quanto somos dependentes da insatisfação cotidiana.

Haja divã...
Haja analise!!!

Beijosss

ED CAVALCANTE disse...

MENINA, QUE TEXTO É ESSE. MAS É ORIGINAL, FAZER ANÁLISE PORQUE TUDO DÁ CERTO É, NO MÍNIMO, SURREAL! KKKKKKKK

1 disse...

Tudo que temos por demais, torna-se comum. Sempre aspiramos pelo que não temos.
Dizem que a felicidade total, só conseguimos na morte, já que lá será a única situação em que não precisaremos de nada.

Estás ficando especialista nessas revirevoltas de último parágrafo!

Beijos.

Lívia disse...

Amei! Hahaha. Me fez dar boas risadas imaginando alguém tentando se dar mal e não conseguindo, quando pros outros isso é tão fácil! Só mostra que 'a gramado vizinho é sempre mais verde' - no caso, mais cinza. Que graça tem a sua ser verde, se dessa cor você não gosta?


@ imaginaryworld.blogger.com.br

Anônimo disse...

Sortuda!
As vezes ter sorte demais pode ser um azar o__o
beijooos.

Lucas FCBA disse...

è um belo exemplo daquele ditado pupolar "Se não conssegue vencer juntese a ele"(ou alguma coisa parecida)
Legal teu blog bom tu já postou no meu mais fica a propaganda

http://criticasloucas.blogspot.com/

Erich Pontoldio disse...

Engasgar com jujuba é d+ ... muito bom o texto.


http://www.algunstrintaanos.blogspot.com/

LETÍCIA CASTRO disse...

Lindo o texto, Jana! Sabe que eu me reconheci em muita parte? Eu tenho essa coisa de querer "me desvirtuar", mas o destino sempre impede, é impressionante. Sabe, tipo, take a walk on the dark side? Eu até vou, mas até o dark side me protege e me manda de volta! Dá uma "reiva"! hehehe
Amei o que vc disse sobre o vídeo indiano no Babel e fiz questão de vir te dizer isso. Que sorte, pois encontrei o teu blog.
Voltarei mais vezes, pode ter certeza.
Beijo!

Caio Rudá de Oliveira disse...

Adorei! Ótimo texto, Jana. Faltou um pouco de profundidade na fala do analista, mas a presença é desnecessária.

É o tipo da coisa que se melhorar, estraga :D

Anônimo disse...

"Como me tornei estúpido" de Martin Page. Tem gente que simplesmente não consegue. Bom o texto. Beijos.

Anônimo disse...

hahaha

Que horrivel! Dá tudo certo e você ainda acha ruiM!
haah


Já que é assim, que tudo dê errado daqui pra frente!
Zuano!!
Muito sucesso no blog!

Anônimo disse...

"- Lamento decepcioná-la, Srta. Becker, mas acredito que o teu bem-estar é crônico. Não há o que fazer, exceto se acostumar com ele. "

Caracas... eu quase pude ler meu nome ali em ciima... rsrsrsrs
Te liinkei... e vou estar sempre por aquii...

Um beiijo, queriida!

Anônimo disse...

obrigado pelo selo querida
seu blog está cada vez melhor.
vc é uma de minhas escritoras preferidas
sucesso sempre

Marcelo Leite disse...

curto muuito
:)
layout bacana

Anônimo disse...

Mtooo bom... Fico imaginando uma pessoa tentando se ferrar e mesmo assim não consegue... É hilario!!

http://rosarenan.blogspot.com/

1 disse...

Ganhastes um presente, passa lá no Silêncio. Teu blog me faz viajar.
Beijos.

Anônimo disse...

Eeeei!

=)

Muito obrigada pela visita.

Que bom que gostou do meu blog e que linkou ele aqui. Fico feliz!Onde viu o link?

O seu é muito bom .. li alguns textos e gostei muito. Adorei esse. Divertidíssimo. Tbm vou linkar o seu.

Beijos.

1 disse...

Estou sempre por aí, você que anda sumida.
É a Natalie Portman nessa foto do texto?

1 disse...

Hahaha, acho que é ela sim.

Ígor Andrade disse...

Blog "viciante" o seu.
Aos poucos leio todas as outras postagens.
Abraço!

Anônimo disse...

excelente texto e narrativa que flui com muita riqueza. lerei os outros posts. meu abraço.

Ana Yasha disse...

As coisas boas trazem mais coisas boas. Quando se vive num mundo só de acertos, se esse é o seu dia-a-dia, você vai absorver sempre mais e mais acertos...
Ah, confesso que às vezes deve cansar mesmo, "Putz, se todo mundo já se deu mal um dia, por que eu não?" haha.
E depois nos dizem para sentir todas as sensações possíveis...

Anônimo disse...

Deixei um comentário em um outro texto seu- A Saga da Escritora ou Metalinguagem. Vc recebe algum tipo de aviso?

QQr outro comentário, passo aqui de novo!

^^

Unknown disse...

Eu o li faz uma semana, creio! Mas na hora não deu pra comentar.
O que posso dizer é que é original. E a palavra é esta: original.
Para começar, não dá para saber que quem está falando está no divã. Sabe-se apenas que se confessa!
Ao final, sabendo em surpresa donde está, recebe o diagnóstico: bem-estar crônico.
Simplesmente perfeito!!!

Sucesso é seu sobrenome...

Ingrid disse...

"Não fez esforço para conseguir nada. Nem sentia gratidão por nada. Nem se arrependia."

sem descontentamento, a vida é um mar raso e tranquilo, não tem graça.

Anônimo disse...

Que Irônico!

Mto bom!