- Bem que eu tentei. Tomei veneno, caminhei bêbada sobre a beirada do terraço de um prédio de trinta andares, deitei-me sobre pregos, comi biscoito estragado, engasguei com jujubas açucaradas. Tentei ser o pior que pude, mas minha vida sempre foi razoavelmente boa. Nunca vivi um amor proibido e avassalador, nunca passei uma noite na cadeia e mesmo fumando dez cigarros por dia há quinze anos, não estou nem perto de conseguir um tumor. Sempre dei o azar de não dar o azar, e meus anos sempre correram conspirando com minha sorte, mesmo nos momentos em que eu insistia em fazer tudo errado; as coisas sempre acabaram bem para mim. Aliás, já começaram bem: nasci em família abonada, fui criança de passaporte e cursos de natação, inglês, balé e teatro... enfim, qualquer um daria tudo para viver como eu sempre vivi. Enquanto eu daria tudo para ser qualquer um. Tentei ser pobre, mas até sendo pobre eu crescia na vida; tentei entrar para o crime, mas viver ilegalmente era fácil demais pra mim, eu sempre consegui escapar; tentei ser boêmia e passar o resto dos meus anos me auto-destruindo e fazendo arte, mas minha arte era demasiado boa e então os museus me adotaram como vanguarda, o que não me permitiu o sonho de morrer cedo e no anonimato. Mudei de cidade e emprego tantas vezes que perdi a conta. Passei por cada sufoco... Mas, no final, me dei bem em tudo...! Por último, fingi sofrer uma forte depressão, e passei dois meses sem tomar banho ou sol, comer direito ou me comunicar, e aí... resultado: me cansei de bajulações e de um dia pro outro me curei.
(Passados alguns minutos de silêncio, ela senta no divã e pergunta: )
- Então, Dr. Schwartz, o que me diz disso tudo?
- Lamento decepcioná-la, Srta. Becker, mas acredito que o teu bem-estar é crônico. Não há o que fazer, exceto se acostumar com ele.
(Passados alguns minutos de silêncio, ela senta no divã e pergunta: )
- Então, Dr. Schwartz, o que me diz disso tudo?
- Lamento decepcioná-la, Srta. Becker, mas acredito que o teu bem-estar é crônico. Não há o que fazer, exceto se acostumar com ele.
28 comentários:
Me senti sentada no divã...hauhauau
Na verdade já cheguei com esse discurso no meu psicólogo...hauhaua
As coisas sempre deram certo para mim, que eu tomo o dia em que elas não darão...
Que coisa deprimente...
Como uma pessoa não vai gostar das coisas boas que acontecem com ela???
Sei lá...
http://www.avidanobeco.com/
É no nosso divã que descobrimos o quanto a vida é contraditória!
Ou o quanto somos dependentes da insatisfação cotidiana.
Haja divã...
Haja analise!!!
Beijosss
MENINA, QUE TEXTO É ESSE. MAS É ORIGINAL, FAZER ANÁLISE PORQUE TUDO DÁ CERTO É, NO MÍNIMO, SURREAL! KKKKKKKK
Tudo que temos por demais, torna-se comum. Sempre aspiramos pelo que não temos.
Dizem que a felicidade total, só conseguimos na morte, já que lá será a única situação em que não precisaremos de nada.
Estás ficando especialista nessas revirevoltas de último parágrafo!
Beijos.
Amei! Hahaha. Me fez dar boas risadas imaginando alguém tentando se dar mal e não conseguindo, quando pros outros isso é tão fácil! Só mostra que 'a gramado vizinho é sempre mais verde' - no caso, mais cinza. Que graça tem a sua ser verde, se dessa cor você não gosta?
@ imaginaryworld.blogger.com.br
Sortuda!
As vezes ter sorte demais pode ser um azar o__o
beijooos.
è um belo exemplo daquele ditado pupolar "Se não conssegue vencer juntese a ele"(ou alguma coisa parecida)
Legal teu blog bom tu já postou no meu mais fica a propaganda
http://criticasloucas.blogspot.com/
Engasgar com jujuba é d+ ... muito bom o texto.
http://www.algunstrintaanos.blogspot.com/
Lindo o texto, Jana! Sabe que eu me reconheci em muita parte? Eu tenho essa coisa de querer "me desvirtuar", mas o destino sempre impede, é impressionante. Sabe, tipo, take a walk on the dark side? Eu até vou, mas até o dark side me protege e me manda de volta! Dá uma "reiva"! hehehe
Amei o que vc disse sobre o vídeo indiano no Babel e fiz questão de vir te dizer isso. Que sorte, pois encontrei o teu blog.
Voltarei mais vezes, pode ter certeza.
Beijo!
Adorei! Ótimo texto, Jana. Faltou um pouco de profundidade na fala do analista, mas a presença é desnecessária.
É o tipo da coisa que se melhorar, estraga :D
"Como me tornei estúpido" de Martin Page. Tem gente que simplesmente não consegue. Bom o texto. Beijos.
hahaha
Que horrivel! Dá tudo certo e você ainda acha ruiM!
haah
Já que é assim, que tudo dê errado daqui pra frente!
Zuano!!
Muito sucesso no blog!
"- Lamento decepcioná-la, Srta. Becker, mas acredito que o teu bem-estar é crônico. Não há o que fazer, exceto se acostumar com ele. "
Caracas... eu quase pude ler meu nome ali em ciima... rsrsrsrs
Te liinkei... e vou estar sempre por aquii...
Um beiijo, queriida!
obrigado pelo selo querida
seu blog está cada vez melhor.
vc é uma de minhas escritoras preferidas
sucesso sempre
curto muuito
:)
layout bacana
Mtooo bom... Fico imaginando uma pessoa tentando se ferrar e mesmo assim não consegue... É hilario!!
http://rosarenan.blogspot.com/
Ganhastes um presente, passa lá no Silêncio. Teu blog me faz viajar.
Beijos.
Eeeei!
=)
Muito obrigada pela visita.
Que bom que gostou do meu blog e que linkou ele aqui. Fico feliz!Onde viu o link?
O seu é muito bom .. li alguns textos e gostei muito. Adorei esse. Divertidíssimo. Tbm vou linkar o seu.
Beijos.
Estou sempre por aí, você que anda sumida.
É a Natalie Portman nessa foto do texto?
Hahaha, acho que é ela sim.
Blog "viciante" o seu.
Aos poucos leio todas as outras postagens.
Abraço!
excelente texto e narrativa que flui com muita riqueza. lerei os outros posts. meu abraço.
As coisas boas trazem mais coisas boas. Quando se vive num mundo só de acertos, se esse é o seu dia-a-dia, você vai absorver sempre mais e mais acertos...
Ah, confesso que às vezes deve cansar mesmo, "Putz, se todo mundo já se deu mal um dia, por que eu não?" haha.
E depois nos dizem para sentir todas as sensações possíveis...
Deixei um comentário em um outro texto seu- A Saga da Escritora ou Metalinguagem. Vc recebe algum tipo de aviso?
QQr outro comentário, passo aqui de novo!
^^
Eu o li faz uma semana, creio! Mas na hora não deu pra comentar.
O que posso dizer é que é original. E a palavra é esta: original.
Para começar, não dá para saber que quem está falando está no divã. Sabe-se apenas que se confessa!
Ao final, sabendo em surpresa donde está, recebe o diagnóstico: bem-estar crônico.
Simplesmente perfeito!!!
Sucesso é seu sobrenome...
"Não fez esforço para conseguir nada. Nem sentia gratidão por nada. Nem se arrependia."
sem descontentamento, a vida é um mar raso e tranquilo, não tem graça.
Que Irônico!
Mto bom!
Postar um comentário